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Lucia Belém

Parintinense, doutora em química na área de fitoquímica, professora de química pela UFAM com +40 alunos orientados.

Uma breve história dessa maninha

Maria Lucia Belém Pinheiro nasceu em Parintins no dia 5 de maio de 1944 e teve uma infância no interior do estado onde foi incentivada a gostar das pessoas e ajudar a sociedade. Quando criança, tinha grande interesse pela medicina, ao ver os médicos atendendo pacientes, trazidos pelo seu pai, que era político.

 

Aos 11 anos, Lucia, como é mais conhecida, mudou-se para Manaus com a família devido ao trabalho de seu pai. Após a formação no colégio, apesar da vontade de se tornar médica, ainda não havia o curso de medicina em Manaus e sua família não tinha condições de mandá-la para estudar em outro estado. Assim, ela ingressa em aulas de pré-vestibular para enfermagem.

 

Foi então que surgiu a oportunidade de concorrer no vestibular para a primeira turma de Licenciatura em Química da UFAM. Lucia se interessou pela ciência que estuda a matéria durante a etapa do vestibular, mas foi durante as aulas experimentais que seu interesse se intensificou. Aprender sobre os testes de chama, as cores dos precipitados e a relação com a estrutura dos compostos a impressionou muito e a instigou para continuar na química.

 
A professora Lúcia conta que a ajuda e colaboração do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) foram essenciais no início do Curso de Licenciatura em Química, fornecendo laboratórios, biblioteca e alguns professores  que foram importantes na sua formação.
 
Maria Lucia  Belém Pinheiro encontrou no ensino da química e na pesquisa uma forma de unir sua paixão por ajudar as pessoas e estudar algo que gostava, por isso, seguiu na carreira acadêmica.

O que essa maninha fez?

Como professora, ela lecionou por cerca de 40 anos e orientou mais de 40 alunos, tornando-se uma das figuras mais icônicas do Departamento de Química da UFAM. Lucia sempre teve uma relação próxima com seus alunos e os considerava seus colaboradores, sendo que muitos deles acabaram se tornando seus amigos ao longo do tempo. Hoje em dia, ela se orgulha de ter colaborado na jornada de muitos pesquisadores, que segundo ela “são mais sabidos do que eu”.

 
Sua dedicação e carisma fizeram dela uma figura muito querida e respeitada na comunidade educacional. Seus alunos reconhecem seu compromisso com a educação e a admiração que ela tinha por eles.

Além de suas contribuições na área de ensino, Lucia também teve uma carreira de sucesso na pesquisa. Sua jornada começou em 1982, quando começou a pesquisar na área de fitoquímica (área da química que estuda a química de grupos de plantas) em laboratório a  do  INPA, sob a orientação do professor Imbiriba.

No  aprendizado das técnicas de extração e cromatografia,  Lucia  recebeu a tarefa de  isolar o triterpeno taraxerol a partir da Abuta velutina, mas acabou descobrindo que os cristais obtidos eram na   verdade, sitosterol, esteroide muito comum nas plantas. Determinada a continuar sua pesquisa, ela utilizou água e metanol como eluentes em uma técnica de cromatografia, o que resultou em um material branco pouco solúvel e muito bonito, mas que ela não conseguia analisar adequadamente devido à falta de equipamentos.

No entanto, a jovem cientista não desistiu e se conectou com o professor Imbiriba, que estava fazendo estágio nos Estados Unidos, para ajudá-la a determinar a estrutura da substância. Com sua ajuda, foi possível identificar que se tratava de uma ecdisona, um tipo de esteroide que causa mutação em insetos, sendo um potencial inseticida. A descoberta     foi significativa e permitiu que  publicasse, com o professor Imbiribar, o pesquisador Wilson Wolter Filho  e colaboradores estrangeiros, sua primeira pesquisa em 1983, revelando a estrutura inédita da molécula denominada Abutasterona, que  apresentou fraca atividade inseticida nos testes realizados. 

Maria Lucia teve a oportunidade de realizar estágios no  Laboratório do Serviço  de Farmacognosia, do professor Luc Angenot,  em Liege, onde aprendeu muito e pôde trazer sua experiência para o Brasil, além de complementar seu mestrado. Para ela, a Amazônia é um laboratório vivo, onde cada planta conta uma história diferente e apresenta moléculas diversas, com atividades importantes na cura de doenças ou na transformação de rotas sintéticas.

Durante seus muitos anos na UFAM, a professora testemunhou  muitas mudanças, desde a unificação das casas espalhadas no Campus Universitário até a criação do Centro de Apoio Multidisciplinar, que dispõe de equipamentos  avançados como RMN, espectrômetros de massa, CLAE e outros que auxiliam em pesquisas nas áreas de química, física e biologia.

Para o futuro, a professora acredita que uma área promissora para a fitoquímica é o estudo de micro- organismos, como fungos, que possam realizar transformações orgânicas. Além da utilização da tecnologia para análises preliminares com uso da ancoragem molecular, que faz a previsão teórica da interação entre moléculas, para decidir se vale ou não examinar um composto.